sexta-feira, julho 25, 2003

Texto publicado no passado dia 16 de Abril pelo Jornal O Primeiro de Janeiro e posteriormente publicado no livro editado pelo mesmo, intitulado - Toxicodependencia - novos caminhos e soluções

Ares do Pinhal –Associação de Recuperação de Toxicodependentes

Depois da tempestade...
vem a bonança.


O processo terapêutico de um toxicodependente passa, geralmente, por duas fases diferentes: o parar com os consumos tóxicos, suportando o conjunto de sintomas psíquicos e físicos provocados pelo síndroma de privação; e o reaprender a viver, sem droga, reencontrando o interesse e o prazer de viver.
Destas fases, a segunda é de longe a mais complexa e a mais difícil, e é por isso que existem muitas recaídas.

Reaprender a viver exige, para muitos, um apoio especial, que nem sempre é possível encontrar no local de vida habitual do toxicodependente, quer pelo isolamento a que conduziu a sua vida, quer pelas relações doentias que mantém, quer pelas solicitações demasiado próximas e frequentes que não permitem criar, nem uma distância em relação ao tóxico, nem outros pólos de atracção saudáveis.
Assim, pode ser necessário e benéfico complementar o tratamento iniciado em regime ambulatório com o internamento prolongado numa Comunidade Terapêutica.
Ares do Pinhal pretende facultar à pessoa residente uma experiência de vida com condições favoráveis para a restruturação da sua personalidade. Pretende, também, facultar um apoio e uma distanciação em relação ao tóxico, que permita ao residente reencontrar a sua vida, criar e/ou recriar os seus projectos, aprendendo a resolver vivências conflituais consigo próprio e/ou com os outros, autonomizando-se progressivamente em relação à famíla, aprendendo também a ser capaz de estar só mas em interacção com os outros, reatando e criando ligações estruturantes, sem ficar na dependência, sendo capaz de se organizar em relação à concretização de projectos.
Pretende-se que Ares do Pinhal seja um lugar, um espaço ou um tempo onde se faça a descoberta de si próprio, física e psicologicamente, nas suas possibilidades e limitações; a aprendizagem do controlo e do domínio de si próprio e a procura do seu aperfeiçoamento; a descoberta da relação com os outros, que nos limitam e nos completam; que nos podem ouvir e a quem se pode ouvir; a quem podemos dar e de quem podemos receber; de quem se pode gostar e que podem gostar de nós; com que se pode partilhar o passado, o presente e o futuro; o encontro do interesse e satisfação do trabalho, quer pelo domínio, transformação e utilização da realidade, prova da sua capacidade e possibilidade de autonomia, quer pela possibilidade de criar e exprimir.
Assim, a perspectiva deste projecto situa-se mais numa atitude de ajuda e incentivo à transformação anterior, do que numa perspectiva de correcção e controlo do comportamento externo.
Para a concretização destes objectivos utilizam-se, essencialmente, quatro instrumentos: a vida comunitária, como forma de encontrar o prazer de comunicar, de partilhar, de ajudar e de se sentir reconhecido; a abordagem psicoterapêutica como forma de reencontro consigo próprio, da descoberta do seu mundo intrapsíquico e da sua vida de relação; o lazer, como forma de permitir a diferenciação, a escolha e também o divertimento; o trabalho, como forma de criar ou recuperar a confiança nas próprias capacidades.
O projecto terapêutico tem a duração média global de doze meses, e é constituído por três fases: a primeira fase, de adaptação/estabilização, em Chão de Lopes (Mação), com o máximo de 14 residentes; a segunda fase, de internalização/ressocialização, em Aldeia de Eiras (Mação), com o máximo de 18 residentes; a terceira fase, de reinserção, em Rinchoa (Sintra), com o máximo de 23 residentes; e por fim uma quarta e última fase, no apartamento terapêutico em Caxias (Oeiras), com capacidade para oito residentes em fase de reinserção socio-laboral. Esta última fase tem a duração máxima de cinco meses.

Plano de Redução de Riscos e Redução de Danos na Cidade de Lisboa
Ares do Pinhal iniciou este trabalho em Agosto de 1998, no âmbito do Plano Integrado de Prevenção da Toxicodependência do Casal Ventoso.
Actualmente, no âmbito do Plano Integrado de Prevenção da Toxicodependência na Cidade de Lisboa, da responsabilidade da Câmara Municipal de Lisboa e do Instituto da Droga e da Toxicodependência, alargou-se este trabalho a todos os toxicodependentes afastados das estruturas de saúde e sociais em geral.
Neste momento, Ares do Pinhal é responsável por:
- Dois Gabinetes de Apoio ao Toxicodependente: uma na zona oriental da cidade e outro na zona ocidental, cada um deles com apoio médico e psicossocial que acompanha e encaminha os utentes para a rede dos serviços de saúde e sociais, sendo que cada um destes Gabinetes é apoiado por uma Unidade Móvel com apoio de enfermagem, que faz paragens em locais estratégicos da cidade, e que têm como função o rastreio de doenças infecciosas e a administração de medicamentos (medicação para a tuberculose e a administração de metadona em baixo limiar de exigência).
Estas estruturas atendem diariamente, de segunda a domingo, 1200 utentes.
- Centro de Acolhimento – Estrutura intermédia, que acolhe 50 toxicodependentes sem abrigo em regime de internamento completo, com apoio médico, psicológico e de enfermagem diários. O objectivo do Centro é preparar os utentes para serem encaminhados para as estruturas de tratamento e sociais da rede.
Em conclusão, todo o Plano de Redução de Riscos, para além de melhorar a qualidade de vida destes utentes, permite, desde logo, grandes benefícios em termos de saúde pública, nomeadamente no que tem a ver com a propagação da tuberculose e do HIV/SIDA, permitindo encaminhar uma média de 37 utentes por mês para Comunidades Terapêuticas de Recuperação de Toxicodependentes e Centros de Atendimento a Toxicodependentes.